
17 anos de carreira significam, para os irlandeses Primordial, 17 anos de batalhas na cena europeia para levarem o seu metal extremo, com claras influências pagãs, cada vez mais longe. A banda é tida pela generalidade dos seus pares, como um dos mais honestos, trabalhadores e originais colectivos europeus, e discos como «Storm Before Calm» ou «Spirit The Earth Aflame» são autênticos manifestos do verdadeiro espírito irlandês, adaptado ao metal extremo. Agora, os Primordial estão de volta, com um novo trabalho chamado «The Gathering Wilderness», uma nova editora e uma nova atitude em relação à sua sonoridade. O vocalista A.A. Nemtheanga esclarece-nos todos estes pontos, e aponta baterias à melodia que vem da Escandinávia na entrevista exclusiva que se segue.

Apesar de desta vez vocês terem tido o Billy Anderson como produtor, conseguiram manter a vossa própria sonoridade. Foi difícil consegui-lo, com este produtor?
Não, nem por isso. Nós temos o nosso próprio estilo, a nossa sonoridade própria, a nossa própria maneira de fazer as coisas. Nós só queríamos fazer com que o disco soasse mais vivo, como se o ouvinte estivesse connosco na sala de ensaio, aquela espécie de sonoridade old-school e energia que o heavy metal directo tinha... abrir o som da bateria e do baixo, esse tipo de coisas. Foi isso que tentámos fazer. E é esse o tipo de coisa que o Billy faz. E também, a dada altura, tens que te desafiar a ti mesmo, mudar as coisas um pouco. Nós tinhamos que agitar as coisas. Já lá vão cinco álbuns, e estava na altura de tentarmos fazer as coisas de uma maneira um pouco diferente. Nós podíamos ter feito as coisas e ter o mesmo som dos outros discos, mas queríamos algo de diferente.
Vocês enviaram-lhe demos das músicas novas?
Não. Ele não ouviu nenhuma das músicas novas até ter chegado aqui à Irlanda.
Ele ficou surpreendido com a vossa sonoridade?
Não. Ele tinha os álbuns anteriores, por isso sabia que estilo de música nós tocávamos. Acho que ele estava interessado em trabalhar com uma banda europeia de metal mais negro - ou como quer que lhe queiras chamar. Ele nunca tinha trabalhado com uma banda assim antes. E nós queríamos trabalhar com ele, para podermos contar com alguma da insanidade dele (risos), que é cheia de ideias brilhantes. A melhor coisa que o Billy fez para mim, foi a produção de High on Fire - é massiva. E sabes o que ele fez com Neurosis e esse tipo de bandas... Para algumas pessoas, talvez o álbum soe demasiado cru, etc, etc, mas eu não sei. Acho que tantas produções que se ouvem hoje em dia são tão plásticas, triggadas e computadorizadas. Quando eu pego num álbum antigo de metal, o «Into Glory Ride» ou o «Blood Fire Death» ou alguma coisa do género... as bandas soavam de uma maneira diferente, e era isso que queríamos fazer.
Está muito mais perto do som que vocês têm ao vivo.
Era isso exactamente o que queríamos fazer.
Este álbum é provavelmente um dos mais épicos da vossa carreira. Concordas com isto?
Sim. A opinião geral parece ser que o álbum é um pouco mais negro, com um som um pouco mais opressivo, quase claustrofóbico, com uma espécie de poder hipnótico. Talvez seja mais épico que o último álbum. Não sei se será mais épico que o «Spirit The Earth Aflame», mas tem essa qualidade, definitivamente.
Vocês colocaram aqueles padrões rítmicos e de riffs a repetirem-se de propósito para que a vossa música soasse hipnótica e quase tribal?
Nós sempre tivemos essa qualidade, essa espécie de riffs hipnóticos que se podem encontrar em bandas que vão de Neurosis a Burzum. Mas porque agora temos este som e a bateria é muito mais poderosa, talvez se note mais. Não existem versos, solos ou coros; nós contamos apenas com esta atmosfera hipnótica que induza quase a um transe. Podes chamar-lhe um sentimento quase tribal, sim.
E é uma coisa que surge naturalmente na banda, ou vocês planeiam esse tipo de sonoridade?
Não. Nós não fazemos nada assim. Nós apenas escrevemos música da maneira que o fazemos. E elas saem da maneira que as ouves. Nós não ouvimos segundas opiniões, não as analisamos. Se uma música tem um blast e um riff black metal ao longo de todo o tema, é assim que essa música fica. Se outra música é totalmente diferente, e dentro do nosso estilo, também fica. Nós não pensamos se este riff soa a isto ou aquilo - confiamos no facto de termos o nosso próprio estilo, e deixamo-nos levar por isso.
Desde que vocês todos estejam na sala de ensaio a compôr, tudo o que sai tem o estilo de Primordial?
Sim. Há muitas coisas que não usamos, que vão surgindo de vez em quando. Mas nós temos o nosso estilo. Não há o risco de alguém surgir com um riff e nós o mandarmos foder porque se parece com Slayer ou qualquer coisa (risos). Não funciona assim. Nós temos a nossa própria 'imagem de marca sonora', e é assim que escrevemos música. Se quiséssemos tocar outro estilo de música, começaríamos outra banda, com outro nome. Este é o nosso estilo.
Porque chamaram ao álbum «The Gathering Wilderness»?
Era uma frase que parecia dizer muito sobre o estado do mundo neste momento. A inquietação que se reúne... o sentimento do homem comum nas ruas. Quer seja por causa da situação política no mundo ou por causa de catástrofes naturais, nós sentimos que o mundo está numa escala de-evolucionária. Estamos numa espiral descendente para algo muito mais caótico. É a isso que se refere o título. Refere-se a causas perdidas, a velhas feridas políticas a reabrirem-se... é o sentimento geral de olhar para o mundo e ver a falta de esperança que algumas pessoas têm, porque sentem que não têm voz, sentem que os seus direitos lhes foram retirados. Há também uma parte do título que é sobre o multinacionalisto, a globalização, a mistura de culturas.
Achas que os tempos históricos em que aconteceram as grandes coisas que podem ser cantadas estão perdidos para sempre, ou uma banda como Primordial pode cantar sobre a história que se passa hoje?
Nós não somos românticos. E se cantamos sobre algo histórico ou cultural do passado, não estamos a cantar essencialmente coisas do passado. Tudo o que fazemos tem eco, ou ressonância, na era moderna. Por exemplo, o tema «Sons of the Morrigan» do álbum «Storm Before Calm», que fala das Crianças de Lyr, que são mitologia anciã irlandesa, é um tema mitológico. É sobre três crianças banidas do seu reino, que são transformadas em cisnes e que têm que deambular por lagos durante 800 anos, e que depois regressam ao reino e encontram-no destruído e mudado. Não escrevi isso literalmente sobre as Crianças de Lyr; é um conto alegórico sobre a perda de identidade cultural de hoje, ou sobre alguém que deixa a Irlanda e depois regressa passados uns 20 anos, e descobre que muita da sua cultura foi substituída por capitalismo e inveja... esse tipo de coisas. Se usares esse tipo de coisas para tentares dizer alguma coisa num contexto moderno. Porque nós vivemos em 2005, não vivemos em 3000 a.C.
Qual é, para ti, a razão pela qual a Irlanda tem um sentido tão patriótico?
Existem duas razões. A primeira é o facto de sermos uma ilha. Temos uma mentalidade de ilhéus - não temos mais ninguém ao nosso lado. Então, as pessoas viveram muitos anos com as suas próprias ideias. A outra coisa foi a Grande Crise. Os irlandeses espalharam-se por todo o mundo, imigraram, deixaram a Irlanda porque já não tinha nada para lhes oferecer - eram demasiado pobres, ou passavam fome. Toda a gente sabe que os Irlandeses estão espalhados por todo o mundo. Existe talvez uma terceira razão, que é o facto de termos uma grande tradição artística, quer seja em termos de literatura ou música. Há demasiada gente irlandesa famosa, para um país tão pequeno. Acho que a tradição artística nos está no sangue. Eu vejo Primordial como a continuação disso também. É um pouco difícil dizeres porque é que o teu país é da maneira que é... nós temos uma história muito rica. Também porque a maior parte das nossas tradições nasceram a partir de lutas. Nós sempre estivemos por baixo; nunca estivemos numa posição de supremacia sobre ninguém. E quando um país é assim, acho que as pessoas se podem inspirar muito mais para a sua arte - têm expressar o que têm a dizer. São estas as razões que eu encontro. Algumas pessoas podem dar-te razões diferentes, mas para mim são estas as razões.

Estás ao corrente dos ataques racistas que os imigrantes portugueses têm sofrido na Irlanda?
Nunca ouvi falar de tal coisa. Mas sejamos francos... se as pessoas imigram para o nosso país, não são postas a viver nas áreas mais caras de Dublin. Vão ser colocadas a viver ao lado da classe trabalhadora. E a Irlanda tem um buraco social massivo; há uma larga fatia de classe trabalhadora, não particularmente bem instruída - às vezes mesmo ignorante. E colocas os imigrantes a viverem ao lado desta gente, que nunca teve que lidar com isso antes, e vais arranjar problemas. É assim que são as coisas. E depois, a imprensa não está interessada em escrever sobre os sobre os crimes dos negros sobre os brancos; só está interessada em escrever sobre os crimes dos brancos sobre os negros. Nós vivemos num estado de correcção política, e as pessoas acham que é a sua função proceder assim. Acham que é o que deve ser feito. Há muitos problemas na Irlanda, especialmente em Dublin, com esse tipo de coisas. Porque a Irlanda, até há bem poucos anos atrás, nunca teve nada disso, e agora temos muita gente a entrar no país. Social e economicamente, demora muito tempo a habituarmo-nos a essa ideia. É preciso seres irlandês, viveres em Dublin e veres a classe trabalhadora para conseguires perceber totalmente o abismo entre as classes que existe neste país. Mas ataques a portugueses... eu nunca tinha ouvido isso antes. As pessoas imigrarem de um país de primeiro mundo para outro é um pouco estranho (risos). Se isso realmente aconteceu, provavelmente há duas versões para essa história. Não consigo imaginar pessoas irlandesas a atacarem pessoas portuguesas, que são em tudo parecidas com elas.
Provavelmente aqui foi uma grande notícia por serem portugueses, mas aí nem se soube. Mas lá está, é como tu dizes. Se há uma crise económica ou um sistema social injusto e as pessoas não têm emprego, a primeira coisa que culpam são os imigrantes mesmo ali ao lado.
E não é apenas isso. Se pegares em secções da classe operária de Dublin... as pessoas mantêm-se juntas quando vão trabalhar para outro país - é natural. Mas depois formam-se ghetos, e os irlandeses nunca tiveram que lidar com isso, especialmente a classe operária. E o nosso sistema de segurança social apoia muito mais os imigrantes que estão desempregados do que os irlandeses, e acho que as pessoas ressentem-se disso. É um assunto complicado.
Vocês estão agora na Metal Blade. O que aconteceu com a Hammerheart?
Nós chegámos ao fim da linha com eles. Não podíamos avançar mais. Tu vais até onde podes com alguma pessoas, e depois tens que mudar as coisas. E nós queríamos, por uma vez em todos estes anos, tentar trabalhar com uma editora que pudesse apoiar-nos e colocar-nos nos sítios certos, em que há toda uma infra-estrutura por detrás de ti a tentar mostrar-te ao mundo.
Qual pode ser o próximo nível para vocês?
Não sei. Nós fizemos um álbum forte - o nosso quinto álbum forte, não soamos como ninguém, ninguém soa como nós, a promoção está a decorrer, nós temos digressões marcadas. Se as pessoas não comprarem um álbum de Primordial agora, nunca vão comprar nenhum - temos que aceitar isto. Talvez a banda já seja tão grande como vai alguma ser, quem sabe? A banda vai ter o mesmo som, quer venda 5.000 ou 50.000 discos. Não interessa. Obviamente, quanto maior ficas, mais oportunidades tens, mais são os concertos e festivais em que podes tocar, podes fazer música num estúdio melhor. Se isso acontecer, ainda bem, óptimo. Não nos vai mudar.
Incomoda-te o facto do metal hoje em dia ser mais um mercado do que uma cena?
Sim, completamente. Acho que é horrível. Ainda existem grandes bandas por aí, ainda podes encontrar Reverend Bizarre, ou Old Father, ou Axis of Advance, ou Deströyer 666... Witchcraft, Watain... ainda existem grandes bandas, que têm o seu próprio espírito individual, que fazem algo de diferente. E depois tens o metal-shapoo-escandinavo-airbrushed-a-abanar-o-vestido-de-seda-preta-a-cantar-sobre-merda-de-anjos. Não significa absolutamente nada para mim. E não estou apenas a falar das bandas com vocalistas femininas - todas as outras bandas góticas horríveis que cantam sobre absolutamente nada não significam precisamente nada. Mas acho que essas bandas têm que existir, para que bandas como nós possam estar do outro lado. Acho que somos uma espécie de antídoto para tudo aquilo.
Mas a vossa promoção tem que lutar arduamente com esse tipo de bandas para conseguir algum espaço para vocês nas revistas de metal...
Claro. É difícil hoje em dia. Existem milhares de bandas merdosas. Estou aqui nos escritórios da Metal Blade, e existem caixas de promos por todo o lado. Eles devem receber umas 50 demos a cada dois dias. Com a internet, há tantas editora, há tantas bandas... às vezes essa cena mantém bandas que merecem subir ainda mais em baixo. Porque o mercado está tão cheio. Mas o que se pode fazer? Continuarmos a preocupar-nos, ou continuar a fazer o que fazemos.
Não te incomoda então que a promoção do vosso álbum tenha que passar por uma máquina de marketing igual a tantas dessas bandas que desprezas?
Não, de modo nenhum. Se estivéssemos num festival e tivéssemos que tocar ao lado de uma banda merdosa, tipo Edenbridge ou qualquer coisa, eu ficaria enojado, porque eles são mesmo uma merda. Mas ao mesmo tempo, tu estás em palco, tens que tocar, tens que fazer o que fazes. Com sorte darias cabo deles, e as pessoas na audiência perceberiam qual seria a porra de banda a sério ali, a tocar música a sério. Tu fazes o que fazes, e tens que tentar que essas coisas não te incomodem. Ou usar que a arrogância dessas bandas te faça querer escrever música mais pesada e mais intensa. Há muitas coisas que me fazem ficar zangado (risos). Não é difícil, mas com tanta coisa na cena hoje em dia, eu sinto-me basicamente agradecido por haver tanta coisa boa também. Ainda podemos tocar concertos com Gospel Of The Horns ou Desaster. Ainda há pessoas dispostas a fazer coisas, e essa é a grande diferença. Eu escolho não ouvir... tu sabes de que bandas eu estou a falar.
Achas que depois desta geração que está a crescer com a internet, o metal alguma vez vai voltar a ser underground?
O metal é underground! Há mais metal underground agora do que havia em 1996 ou 1997. Há mais fanzines, mais fanzines old-school, mais ep's 7", mais lançamentos independentes de boas bandas. Até os meus amigos na Irlanda, têm os Old Father, os Gospel Of the Horns. Há pessoas a fazerem esse tipo de coisas. Só tens que procurá-las. E, cada vez mais, podes ir a uma loja e trazer o novo disco de Funeral Mist e o novo disco de Saxon, se quiseres. As cenas estão a aproximar-se, mas o underground está a ficar cada vez mais activo, julgo eu. Apenas tens que procurá-lo. Só tens que querer encontrar as bandas e afastar toda a merda até chegares lá. Mas é compensador. Eu ainda sou tão entusiástico em relação a bandas agora como era quando tinha 16 anos. E fico contente por isso. Ainda existem bandas que me entusiasmam. Talvez já não tantas, mas ainda existem algumas.
«The Gathering Wilderness» é editado no dia 7 de Fevereiro.
Publicado por BillLaswell em janeiro 31, 2005 03:40 PM