12.11.2005 Culto Club, Cacilhas

Foi no dia 12 de Novembro que os mais saudosistas das gloriosas noites lisboetas de sábado à noite, passadas na discoteca improvisada Juke Box, se encheram de nostalgia para receber uma banda que não falhava um destes sábados. Falamos dos germânicos The Eternal Afflict que, através do seu mítico tema «San Diego», eram responsáveis por um momento sempre repleto de dança, ‘pulinhos’ e animação.
Já passaram entretanto muitos anos e banda tem em carteira oito álbuns. No entanto, o interesse em redor deste clássico permanece como o mote máximo para ‘ir ver’ um colectivo que, em quinze anos, pisou agora pela primeira vez um palco luso. O evento foi organizado pelos ‘leirienses’ responsáveis pelo festival itinerante Fade In que, depois de terem feito uma primeira experiência fora de Leiria (Laibach no Hard Club), escolheram o espaço do Culto Club (em Almada) para servir de palco à deslocação do festival até sul.

O ambiente era descontraído e banda estava aberta a trocar experiências com os fãs. Mas este ambiente familiar não significa pouca gente: esta foi, aliás, a maior enchente gótica que esta casa viu até à data. Houve exuberância de vinil e jovens aperaltadas abundavam, embelezando uma noite em que a expectativa era muita.
Para os mais jovens, ou distraídos, os ‘Eternal’ praticam um EBM com a adição de algumas influências punk, vislumbradas também nos motes politico-sociais que algumas passagens líricas traduzem. Em palco a veia electrónica está assumidíssima, encontrando-se apenas Wynus e Mark, atrás dos sintetizadores, para além do vocalista Cyan. A convidada Sara Noxx veio essencialmente para desempenhar ‘backing vocals’ e só já no fim aproveita «Venustrap» para um dueto com Cyan, de longe o melhor momento da noite. De resto, o público pedia-lhe «Society» - o seu maior êxito a solo – mas, sorridente, Sara respondia apenas “nice joke!!”. A sua voz é uma mais valia, e o seu estridente timbre, quase infantil, assenta na perfeição a qualquer trilha electro-goth, valendo-lhe tal dom inúmeros elogios.

Existem no entanto dois aspectos relativos a Sara que não posso deixar de mencionar: o primeiro prende-se com o facto de a meio do concerto, e por entre temas em que se encontrava menos participativa, esta jovem estar com a cara mais sôfrega que alguma vez vi num palco. Depois, já com uma expressão de quem estava prestes a cortar os pulsos, sentou-se mesmo numas escaditas contíguas ao palco e ficou a olhar para o chão, cessando apenas esta ‘meditação’ para tirar umas fotos ao público e à banda... O segundo aspecto é um pouco primário mas não posso deixar de expressá-lo, por tão evidente: se a esmagadora maioria do público se aperaltou para receber a banda alemã, Sara Noxx fez questão de se apresentar o mais ‘casual’ possível - lencito na cabeça, t-shirt alargada e já com aspecto de muito lavada, calcita de ganga azul clara e ténis. Não percebi muito bem se foi uma afirmação social se foi apenas mero desleixo para com quem foi vê-la. É um mero à parte mas que me fez ficar a pensar: “não se poderia ter arranjado um bocadito melhor?? Hein? É um pouco desrespeitosa, tal aparência.”

Relativamente à musica propriamente dita, tudo começou com uma introdução, seguindo-se «Babylon». A voz estava ainda pouco audível e o baixo volume geral fazia com que se ouvisse um público que ainda não tinha parado de conversar. Foi um começo estranho. «We libanon you» e «Euphonic & Demonic» já cativaram mais um público que ainda encetava os primeiros movimentos corporais, enquanto «Trauma Rouge», «Godless» e «The Riot in Cellblock 666» colocavam já tudo a dançar, contando-se inclusivamente os primeiros apelantes a «San Diego». Seguiram-se «Perfect Future», «Childhood», «Hellbound» e «Door to my pain» e, para quem tinha dúvidas, confirmou-se: os novos contornos excessivamente electro que todos os temas agora ostentam não só desvirtuam um pouco as origens como cortam o impacto. Seguiram-se«Crash Course In The Garden of Christ», «Agony, I like», «The With» e «Tranceworld» e já ninguém se mostrava inibido em mexer-se. Foi a primeira tentativa para encerrar a noite, com Wynus a juntar-se na frente do palco a Cyan para cantar estes últimos temas. Nos primeiros encores o dueto, perfeito, com Sara em «Venustrap» e ainda o tema «Dream Eraser». Já haviam passados dezassete (!) temas mas não havia dúvida: haveria um segundo encore, porque o expoente «San Diego» ainda estava de fora.

E assim foi. «San Diego» e «Rock n Roll Whore» a encerrar. O tema mais desejado desiludiu pela falta de guitarras e força em palco e um público já ‘cansadito’ nem sequer o cantou com o devido fôlego - talvez também um pouco desiludido com a falta de energia de que a música agora padece. Apesar de tudo foi o momento mais alto do Culto Club até agora, e é já com grande ansiedade que se esperam mais iniciativas tão puramente ‘Gó’ nesta ‘casa’ lisboeta. O Fade In continua a gerar novos ‘fadeinners’, já que em cada evento organizado ‘prendem’ novos devotos, expectantes de novo acto internacional que este ‘festival’ traga.
Texto: João Matos
Fotos: Eva Matos